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Janeiro Branco, o ano todo: um movimento de convocação ao cuidado em saúde mental, de janeiro a janeiro

Por Miriam Alice
Psicóloga Clínica com MBA & Especializações
Psicoterapeuta de Casal & Família.

Janeiro chega, o ano começa e, com ele, reaparece o convite do Janeiro Branco: falar de saúde mental, olhar para dentro, repensar caminhos. Em meio a promessas de recomeço e listas de resoluções, o cuidado emocional volta à cena pública, convocando indivíduos e instituições a refletirem sobre como temos lidado com o sofrimento psíquico.

Criado em 2014 pelo psicólogo brasileiro Leonardo Abrahão, o Janeiro Branco é uma campanha nacional e internacional de conscientização em saúde mental que se apoia no simbolismo do início do ano como convite à reflexão sobre a vida emocional. A cor branca remete à ideia de uma página em aberto, sobre a qual podem ser escritas novas narrativas, escolhas e modos de cuidado. Sua proposta central é chamar a atenção da sociedade para a importância da saúde mental como parte indissociável da saúde integral, estimulando o diálogo, combatendo o estigma e incentivando a busca por ajuda.

Mais do que uma ação pontual, o Janeiro Branco se propõe a fomentar uma cultura de cuidado contínuo, de responsabilidade coletiva e de valorização da escuta do sofrimento psíquico, dentro e fora dos consultórios. Trata-se de uma proposta potente e necessária. No entanto, ela também carrega um risco silencioso: o de acreditarmos que o cuidado emocional pode ser concentrado em um único mês, como se o sofrimento psíquico pudesse ser organizado segundo o calendário.

Essa ilusão de temporalidade limitada empobrece a compreensão da saúde mental. A verdade é que ela não começa em janeiro nem se encerra quando o mês termina. A saúde mental atravessa o ano inteiro, infiltra-se na rotina, nas escolhas cotidianas e nas estratégias, muitas vezes precárias, que construímos para lidar com o mal-estar da contemporaneidade. É a partir dessa perspectiva que o crescimento dos comportamentos aditivos tem impactado vidas, famílias e comunidades. O fenômeno do vício em apostas online precisa ser compreendido não como um problema isolado, mas como um sintoma do nosso tempo.

Para entender esse sintoma, é necessário olhar para o contexto em que ele se produz. Vivemos sob uma lógica marcada pela aceleração, pela exigência constante de produtividade, sucesso imediato e felicidade performática. Não há espaço para falhar, sentir demais ou simplesmente parar. A dor psíquica, quando emerge, tende a ser silenciada, medicalizada ou rapidamente substituída por distrações acessíveis e imediatas. Nesse cenário, comportamentos compulsivos deixam de causar estranhamento e passam a ser naturalizados. É nesse terreno que os comportamentos aditivos se intensificam.

As apostas online encontram, nesse contexto, um lugar privilegiado. Estão no bolso, no celular, disponíveis vinte e quatro horas por dia. Prometem emoção, controle, pertencimento e, sobretudo, a fantasia de uma solução rápida, seja ela financeira, emocional ou existencial. Não vendem apenas a possibilidade de ganhar dinheiro, mas oferecem a ilusão de que o vazio pode ser preenchido com um clique, com uma aposta.

Quando essa promessa passa a organizar a vida psíquica do sujeito, o problema se instala. A aposta deixa de ser escolha e passa a ser necessidade. Já não se joga por diversão, mas para aliviar a ansiedade, anestesiar frustrações ou sustentar a esperança de reparar perdas financeiras anteriores. A lógica se repete: perde-se e aposta-se novamente para recuperar; ganha-se e aposta-se mais para prolongar a excitação. O ciclo se fecha, e o descontrole se instala.

Essa dinâmica não é aleatória nem inofensiva. Embora não envolvam substâncias químicas, as apostas online ativam circuitos cerebrais semelhantes aos das substâncias psicoativas. O reforço intermitente, a imprevisibilidade do ganho e a sensação momentânea de poder sustentam o comportamento compulsivo. As consequências, no entanto, são concretas e progressivas: endividamento, conflitos familiares, isolamento, culpa, ansiedade, depressão e profunda desorganização emocional.

Diante disso, é fundamental esclarecer um ponto frequentemente mal compreendido: o vício não está no valor apostado, mas na relação estabelecida com a aposta e na função que ela passa a ocupar na vida psíquica do sujeito. Há pessoas que apostam pequenas quantias e, ainda assim, estão aprisionadas ao jogo; outras que, mesmo diante de prejuízos significativos, não conseguem interromper o comportamento. O sofrimento não se mede em números, mas na perda da liberdade psíquica e no impacto produzido sobre a própria vida.

Nem todas as pessoas são suscetíveis, nem toda aposta envolve vício, mas toda aposta envolve risco. Alguns grupos, no entanto, encontram-se ainda mais expostos. Jovens e adolescentes merecem atenção especial, pois crescem em um ambiente digital que estimula o imediatismo, o risco calculado e a recompensa rápida, muitas vezes sem que tenham sido desenvolvidos recursos emocionais suficientes para lidar com frustrações e limites. Quando esse cenário se articula a contextos de vulnerabilidade social, dificuldades financeiras e sofrimento psíquico prévio, o terreno torna-se ainda mais propício à compulsão.

Ao ampliar o olhar, torna-se evidente que falar de apostas online é, necessariamente, falar de saúde mental. Trata-se de questionar que tipo de sociedade estamos construindo, quando o alívio do sofrimento é terceirizado para algoritmos que lucram com a repetição, a perda e a permanência do mal-estar. Trata-se, também, de perguntar por que tantas pessoas precisam apostar para suportar o cotidiano.

É nesse ponto que o Janeiro Branco recupera sua força simbólica. A campanha nos lembra da importância do cuidado emocional, mas esse cuidado não pode ser pontual, nem superficial. Prevenir comportamentos compulsivos passa por educação emocional, fortalecimento de vínculos, construção de rotinas possíveis, ampliação de espaços de escuta, acesso efetivo ao cuidado psicológico e implementação de políticas públicas. Passa, sobretudo, pela autorização para falar da dor sem vergonha e sem julgamento.

Que o Janeiro Branco, portanto, não seja apenas um lembrete anual, mas um convite permanente ao cuidado. Porque nenhum vazio humano deveria ser explorado como oportunidade de lucro. É exatamente para sustentar as vulnerabilidades de cada um e abrir espaço para possibilidades mais saudáveis de existência que a saúde mental se cuida todos os dias, de janeiro a janeiro.

Aos leitores, caso tenham dúvidas ou desejem aprofundar os temas abordados neste artigo, coloco-me à disposição para esclarecimentos.