Por Miriam Alice
Psicóloga Clínico-Institucional
MBA em Gestão de Pessoas e Especializações na área de saúde mental

O filme O Diabo Veste Prada, lançado em 2006, apresenta um modelo de organização do trabalho marcado pela centralidade do poder hierárquico, pela gestão por pressão e pela naturalização da invisibilização da vida privada dos trabalhadores. Nesse contexto, o sofrimento psíquico não apenas é silenciado, como também reinterpretado como indicador de comprometimento e excelência profissional.
A personagem icônica Miranda Priestly, interpretada por Meryl Streep, encarna uma forma de liderança implacável, na qual a exigência constante e a imprevisibilidade operam como dispositivos de controle. Os colaboradores, por sua vez, adaptam-se a esse ambiente por meio de estratégias de sobrevivência, frequentemente à custa da invalidação de dimensões importantes de suas vidas pessoais e em detrimento de posicionamentos participativos, o que repercute diretamente na saúde mental dos funcionários.
Esse cenário, amplamente legitimado no imaginário corporativo do início dos anos 2000, passa a ser tensionado à medida que os impactos do adoecimento psíquico se tornam mais evidentes. Observa-se, nesse processo, queda de produtividade e aumento dos afastamentos por questões de saúde, com repercussões também para os sistemas públicos em diferentes países.
Sob essa perspectiva de adoecimento físico e mental nas organizações, em 2019, a Organização Mundial da Saúde incluiu a síndrome de burnout na Classificação Internacional de Doenças (CID-11). Trata-se de um fenômeno ocupacional resultante de estresse crônico no trabalho não gerenciado. No Brasil, sua implementação passou a vigorar oficialmente em 2022.
A atualização da NR-1, cuja vigência passa a ocorrer em 26 de maio de 2026, consolida um avanço significativo na gestão de saúde e segurança no trabalho ao incorporar, de forma mais explícita, os riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Essa mudança amplia o entendimento tradicional de risco ocupacional ao incluir fatores como estresse, assédio, sobrecarga, relações interpessoais disfuncionais e a própria organização do trabalho como elementos que impactam diretamente a saúde mental dos empregados.
Cabe ressaltar que a NR-1 (Norma Regulamentadora nº 1) foi instituída em 1978, pela Portaria nº 3.214 do então Ministério do Trabalho. Ela estabelece as diretrizes gerais de segurança e saúde no trabalho no Brasil, funcionando como base para todas as demais normas regulamentadoras. Sua principal função é orientar e exigir que as organizações identifiquem, avaliem e controlem os riscos ocupacionais por meio do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais. Atualmente, inclui não apenas riscos físicos, químicos e biológicos, mas também os psicossociais, promovendo a proteção integral da saúde e da integridade dos trabalhadores.
Ao estabelecer a obrigatoriedade de identificação, avaliação e controle desses riscos, a norma reforça a responsabilidade das organizações na promoção de ambientes de trabalho mais saudáveis, éticos e sustentáveis. Trata-se de um movimento alinhado às transformações contemporâneas das relações de trabalho e às diretrizes internacionais de cuidado com a saúde mental no trabalho.
Em um mundo cada vez mais globalizado, no qual a diversidade se impõe como realidade concreta nas instituições, a presença de sujeitos que não correspondem ao padrão hegemônico deixa de ser exceção e passa a constituir o próprio tecido das organizações. Esse cenário exige deslocamentos nas formas de gestão, comunicação e exercício do poder, especialmente no que se refere à maneira como as diferenças são reconhecidas, acolhidas ou, ao contrário, silenciadas.
Nesse sentido, a diversidade humana não pode ser compreendida apenas como um valor ético ou diretriz institucional, mas como um elemento diretamente implicado na produção ou na mitigação de riscos psicossociais. Ambientes que desconsideram a pluralidade de experiências, identidades e modos de existência tendem a intensificar dinâmicas de exclusão, sobrecarga e sofrimento psíquico.
É precisamente nesse ponto que a NR-1 ganha centralidade, ao estabelecer a obrigatoriedade do gerenciamento de riscos ocupacionais, incluindo aqueles de natureza psicossocial. A norma convoca as organizações a reconhecerem que a saúde mental dos empregados não pode ser dissociada das condições concretas de trabalho, das relações interpessoais e das formas de gestão da diversidade.
A partir dessa perspectiva de mudança de paradigma, é possível perceber uma releitura contemporânea do universo corporativo retratado na sequência do filme, lançada em 2026 e ambientada duas décadas depois. Nessa leitura atualizada, Miranda Priestly permanece uma líder forte e estratégica, porém convocada a operar em um contexto que já não sustenta práticas baseadas na exaustão dos colaboradores e na violência relacional.
Nesse novo contexto, a manutenção de resultados organizacionais passa a depender não apenas da performance individual, mas da capacidade de sustentar ambientes psicologicamente mais seguros e eticamente regulados. Essa transformação não implica a perda de autoridade da editora-chefe, mas a sua reconfiguração. Miranda continua exigente, porém mais atenta aos efeitos de sua comunicação e às dinâmicas relacionais que produz.
Em uma cena emblemática do filme, na qual Miranda, ao lado de uma assistente que não corresponde ao padrão hegemônico norte-americano, é possível observar um deslocamento significativo nas dinâmicas de comunicação e exercício de poder. A assistente atua como um filtro comunicacional, revisando a forma de expressão da líder e tornando-a mais estratégica e favorável às negociações. Esse movimento não apenas qualifica a interação, como também introduz uma mediação simbólica que reduz a incidência de respostas defensivas e favorece a construção de acordos mais sustentáveis.
Há, nesse processo, uma transição de um repertório marcado pela dureza e pela imposição para escolhas linguísticas mais precisas e intencionalmente moduladas. Trata-se de um deslocamento que permite sustentar a autoridade sem recorrer à agressão, ao mesmo tempo em que amplia a responsabilidade relacional da liderança. Essa cena, entre outras, pode ser compreendida como expressão de um amadurecimento estratégico mais amplo, no qual a sensibilidade às diferenças e a consideração pelos efeitos subjetivos passam a integrar o próprio exercício do poder no ambiente de trabalho.
Em síntese, a contribuição do filme reforça criticamente a relevância da NR-1 no mundo corporativo. O percurso entre o contexto retratado em 2006 e as exigências contemporâneas em 2026 evidencia uma mudança significativa na compreensão do trabalho, na qual a excelência já não pode ser sustentada à custa do adoecimento. Ao contrário, a saúde mental passa a constituir condição indispensável para a sustentabilidade organizacional.
A partir dessa perspectiva, o universo retratado no filme pode ser relido criticamente como expressão de práticas que, embora historicamente valorizadas, hoje se mostram insustentáveis. A lógica da excelência baseada na exaustão cede espaço, ainda que de forma incipiente, à construção de ambientes de trabalho mais éticos, nos quais desempenho e cuidado não sejam dimensões excludentes.
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